quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O Beijo como tema ou alegoria numa canção, ou a importância das letras

Num tema em que a parte instrumental esteja casada com uma letra qual assume o papel preponderante? As duas são igualmente importantes. Será a resposta fácil para não nos determos sobre o assunto. Mas é que ele há casamentos, relacionamentos, amizades coloridas e quiçá “one night stands”. E nestes também as duas partes são importantes. Mas há aquela cena do macho alfa, da mulher dominadora e a coisa fica confusa.  Nos meus tempos de juventude a música que eu ouvia era sobretudo cantada em inglês. E confesso-vos: não entendia patavina. Talvez um refrão, uma ou outra expressão, mas bastava perguntar-me qual era o tema da peça e eu, se não inventasse, não me safava. Felizmente ninguém me fazia perguntas tolas. Assim só lá mais para diante, quando comecei a usar esta língua como ferramenta de trabalho e o ouvido ficou suficientemente educado para dar respostas com sentido aos nativos daquela, é que comecei a entrar nas falas das músicas. Percebi então que tinha perdido uma biblioteca inteira, em “podcast” digamos, e quando o Dylan ganhou o Nobel da literatura, pensei se faria sentido procurar canções com letras de Shakespeare, para pôr lá em casa ao lado dos clássicos. A dado passo neste processo começaram a assaltar-me dúvidas filosóficas. Então e se eu estava a dar o meu “like” a uma baboseira qualquer quando era apenas a componente puramente musical que me dava gozo e o canto era apenas mais um instrumento (há um momento, passada a infância jurássica e a adolescência inferior, em que a malta recomeça a fazer perguntas). É certo que há quem diga que vozes expressivas, com intensidade e intenção, não enganam. Hum… já ouvi muita declaração persuasiva que me provocava uma súbita vontade de dizer “estás-me a dar música”. A vida é muito complicada.

Aprofundemos o assunto. Acompanhem-me por favor neste exercício despretensioso: pegamos na “playlist” dedicada ao beijo de “O Meu Mundo” e venham comigo espreitar as letras.


Começamos com Kiss de Prince & The Revolution (https://www.azlyrics.com/lyrics/prince/kiss.html) .  Uma letra com palavras que conduzem direito ao assunto, - You don't have to be beautiful / To turn me on -  servidas com um apuro instrumental fora do comum. Prince não era de rodeios, mas era elegante. O título declara o objetivo subentendido e, de maneira direta, caminha para ele. Ain't no particular sign I'm more compatible with / I just want your extra time and your / Kiss. Este é o beijo “Alinhas? Não sou nada de deitar fora.” Oh oh (diria eu também).



Com os The Cure, em Mint Car (https://www.azlyrics.com/lyrics/cure/mintcar.html),temos o beijo “Estou-me a sentir porreiro, ganda dia, dá-me um beijinho”. The sun is up / I'm so happy I could scream. Desde quando é que acordar cedo é motivo de euforia? It's all I ever wanted / Oh I almost can't believe that it's for real, so pinch me quick / Etc, etc… Só se for pelo beijinho… vá, belisca-o. Os The Cure a fazer figura de adolescentes retardados.  Letra um tudo nada apatetada.


Kid Rock com First Kiss (https://www.azlyrics.com/lyrics/kidrock/firstkiss.html). Grande letra na modalidade adolescente. Grande beijo, tipo “Todos os outros são cópias. Quero o original outra vez”. Fala de coisas ainda novinhas em folha, que são apenas o que são, como aquele primeiro carro, como a música que queríamos que os outros ouvissem, como aquele sentimento de inocência, de página em branco com tudo por escrever e em que a primeira palavra podia ser beijo. É uma rockalhada, mas era capaz de a ouvir “over and over again”.

Com Best Day Of My Life (https://www.azlyrics.com/lyrics/americanauthors/bestdayofmylife.html), dos American Authors, e deparamo-nos com uma letra um tanto ou quanto esquisita. À primeira vista parece uma versão melhorada da letra dos The Cure. Mas vejamos: o personagem central está a sonhar, salta que se farta, mas dançou com monstros, topam? E pede para não o acordarem. Mas assim como é que este vai ser o melhor dia da vida dele? Queres ver que só em sonhos? E não é que mesmo assim dá para fazer o melhor dia de uma vida! We danced with monsters through the night / …/ I'm never gonna look back / Woah, never gonna give it up / No, please don't wake me now / This is gonna be the best day of my life.


Na letra de Steal My Kisses (https://www.azlyrics.com/lyrics/benharper/stealmykisses.html) de  Ben Harper & The Innocent Criminals de novo a beleza das palavras simples. Com grande economia destas impera o amor fugidio, a perseguição amorosa. Uma economia de beijos, apenas os suficientes para manter o ansioso amor pendurado. She said I love the way you think, but I hate the way you act / … / 'Cause I always have to steal my kisses from you.

Com Lips Like Sugar (https://www.azlyrics.com/lyrics/echothebunnymen/lipslikesugar.html) dos Echo & The Bunnymen visitamos os beijos eternamente fugidios, como bolas de sabão, logo ali desfeitos, busca e insatisfação incessante, eternamente deslizante, para além, sempre mais além, mas com a graça de um cisne. She floats like a swan / Grace on the water / … / You'll flow down her river / But you'll never give her / Lips like sugar. Sabemos, de verdade sabemos, que tinham de ser açucarados.


Com Kiss Me (https://www.azlyrics.com/lyrics/sixpencenonethericher/kissme.html) dos Six Pence None The Richers vem o beijo noturno, romântico.  Nada de complicado, de braço dado com a natureza, nada de dramas, Fresquíssimo. Kiss me out of the bearded barley / … / Oh, kiss me beneath the milky twilight / So kiss me.

Chega Stephen Tin Tin Duffy e trouxe Kiss Me (https://genius.com/Stephen-duffy-kiss-me-1985-lyrics). Aqui o meu inglês vacilou. Deu-me com uma meia na vista? She gave me laughter and hope / And a sock in the eye. E isto merece um beijo? Não há aqui um abuso alcoólico? Your love is better than wine / But wine is all I have.  E a cena do descalço na neve para fazer amor no feno?

Barefoot in the snow to make love in the hay / … / Now I can feel you in my arms / I explode inside your kiss.

Agora que te tenho nos meus braços expludo dentro do teu beijo. Ah! afinal era para chegar a isto… ok ok!

Consta que a letra foi escrita nas 24 horas que se seguiram à assinatura da banda pela WEA Records. Não nos espantemos, portanto. Depressa e bem não há quem.

A letra de Seal em Kiss From A Rose (https://www.azlyrics.com/lyrics/seal/kissfromarose.html) enquadra-se no capítulo do beijo mistério. A canção editada em 1994 faz parte da banda sonora do filme Batman Forever de 1995. Isto permite interpretações que ligam o sentido da letra ao personagem do filme. E outras, que lêem a letra como a de um naufrago que, perdido na vida cinzenta, vê a luz no Amor. O cinzento resultaria da mistura do negro, que representa o eterno luto pela morte dos pais, e o branco, a Dra. Chase Meridien, claro. Comecem com Batman sendo a torre cinzenta e vão lendo. Finalmente a bênção assume a forma de um beijo da rosa no cinzento. Ah pois… também pode ter aquela leitura literal e um bocado óbvia de que tem a ver com a viciação em químicos estranhos. Mas a beleza da coisa de certo modo resulta destes diferentes planos que se cruzam e onde cada procura a leitura que responde aos cuidados da sua vida e pensamento. Tal como nos grandes filmes e nas grandes religiões. Interessante.


Kissing A Fool  de George Michael (https://www.azlyrics.com/lyrics/georgemichael/kissingafool.html) é enunciado como um aviso: não tentem desviar um amante do seu sentimento amoroso mesmo que o considerem lélé da cuca. People / You can never change the way they feel / Better let them do just what they will / For they will. Para os que estão exteriores ao sentimento amoroso tanto será então lélé da cuca o que persiste nele apesar de traído como o que trai desprezando o “true love” do outro. But remember this / Every other kiss /
That you ever give / … / I will wait for you / Like I always do. Conhecendo o George Michael como vocês conhecem, isto é o tipo de letra que se identifica com o cantante, ou seja, cria-se um contexto em que as palavras adquirem uma ressonância que as ultrapassa. Dava um fado.

French Kiss e apropriadamente, The Teenagers (https://genius.com/The-teenagers-french-kiss-lyrics) . Aqui temos, “naif” e adolescente, o típico plano de campanha. Objetivo: um beijo bem enrolado. Terreno de batalha: a festa do melhor amigo. We're at your best friend's party. Tática: desgaste físico (4 da manhã hey!), e emocional, tudo lubrificado pela generosa utilização de líquidos. God, it's already 4 a.m / And we're getting tired. Isto não é uma letra, é uma receita. E quem ainda não experimentou talvez tenha perdido alguma coisa. Mas cuidado, há o risco de interpretações deslocadas.


A letra de French Kissing In The U.S.A ( https://www.azlyrics.com/lyrics/blondie/frenchkissin.html ), na voz nítida e afirmativa da Debbie Harry é um hino ao beijo erótico, carnal, explícito e simultaneamente velado, Slip in to the velvet glove / Parted lips so filled with love, jogando em significados simultâneos, língua falada, língua na boca e literalmente, se quiserem, por aí fora, ajustando a designação francesa com a interpretação americana. Take you lover by the hand, speak in tongues and understand / French kissin' in the USA. Excelente. Pena a Debbie Harry – a última vez que a vi - ser já mais memória que presença.

Com Wish You Were Here dos Pink Floyd (https://www.azlyrics.com/lyrics/pinkfloyd/wishyouwerehere.html) fiquei perplexo, o que me acontece com frequência. Onde está o beijo? Ausente. Há na letra uma dúvida persistente sobre o entendimento do mundo, uma angústia perante a solidão essencial de cada um de nós. E um olhar para o Outro, na esperança de, no Outro, apaziguar o medo da existência. So, so you think you can tell Heaven from Hell, blue skies from pain / Did you exchange / A walk-on part in the war for a lead role in a cage? /

The same old fears / Wish you were here. Perfeita.
 


Temos com Last Kiss dos Pearl Jam (https://www.azlyrics.com/lyrics/pearljam/lastkiss.html) o beijo tragicamente derradeiro. A letra está bem carpinteirada. Um tipo sai com o carro, leva a miúda e zás… esbarronda-se contra outro e a miúda fina-se. Mas há ainda tempo para um last kiss. Eh pá emocionei-me. Mas fora de gozos, acho que temos uma letra eficaz, direta, uma história, e a ser verdade, a situação era chata. Problema: isto estava mesmo a jeito para uma campanha da Prevenção Rodoviária.





 
Com Goobye Kiss de Kasabian (https://www.azlyrics.com/lyrics/kasabian/goodbyekiss.html) estamos perante uma interpretação do beijo que sela o desencontro, o último beijo, desde logo prometido no primeiro. Doomed from the start / We met with a goodbye kiss. Uma força centrífuga, o mundo rock, atrai o personagem da canção para outras sendas, para outros dias, para fugir a um silêncio instalado.

Maybe the days we had are gone, living in silence for too long. E no entanto … I hope someday we’ll meet again. Vamos lá ver se ela não tem já com dois filhos e grávida do terceiro… É uma letra que de qualquer modo ilustra a limitação do amor que não ultrapassa o instante que foi perfeito, aquele em que se julga que já se teve tudo. Depois disso é claro que nos aborrecemos. Ok é preciso continuar.


Que pensar então deste olhar ligeiro sobre a amostra que examinámos, versando algumas declinações do beijo? Salta à vista que frequentemente as letras são inócuas, se não mesmo idiotas. E, no entanto, gosto de algumas. Quando ouço uma canção raramente sigo a letra linha a linha com aqui as lemos. Por vezes fixo uma frase num dado ponto da canção e registo o modo de a dizer, a força, a musicalidade daquele pedaço. A voz acaba por ser o instrumento muitas vezes de um som (as palavras) cuja articulação com outras (a letra) perde importância face ao caracter instrumental daquela. Numa canção as palavras mesmo se isoladas têm um poder evocador de contextos individuais que se desligam do sentido literal da frase literária. O sentido total da letra carece de tempo e – horror – por vezes de silêncio para ser apreendida

Só uma boa canção vence o tempo. É afinal neste confronto entre o discurso instrumental - voz incluída - e um acréscimo de leitura dado pelas palavras que as possibilidades mutuamente se fecundam e se enriquecem. Definitivamente: it takes all kinds to make this world go around.


 João Lourenço

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